Frances
Hodgson Burnett, inglesa de Manchester radicada nos Estados Unidos da América
nasceu em 1849 e trouxe a luz a obra prima “O Jardim Secreto” em 1911, que
virou filme em 1993 nas mãos da diretora Agnieszka Holland, produzido pelo
mestre do cinema, ninguém menos que Francis Ford Coppola, com certeza o nome
certo para levar uma obra dessa grandeza para as telonas, sob o selo de seu
falido e emblemático estúdio independente American Zoetrope.
Burnett,
nascida em família pobre, foi mais uma de tantas famílias que deixaram o velho
mundo em busca da liberdade na América, onde esperava uma herança de um tio, o
que não acabou ocorrendo, restando a escolha de trabalhar com costura e
bordado. Morando no Tenessee e passando muitas necessidades, Frances decidiu
abrir uma escola onde ensinava a quem quisesse entrar, enquanto escrevia
contos, até vender o seu primeiro para uma revista, aos dezessete anos de idade,
e em pouco tempo já havia economizado para voltar à Inglaterra, vivendo em
ambos os países.
Autora
de outros clássicos, como “O Pequeno Lorde” e “A Princesinha”, que também virou
filme, Burnett lançou “O Jardim Secreto” em plena belle époque, uma nostálgica era de intenso clima intelectual e
artístico antecedente a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Uma época de
mudanças, inovações, novas tecnologias, paz, arte e cultura em todos os níveis
sociais. Burnett foge de toda a modernidade afluente e buscou escrever um
romance pleno de uma vida ao natural, no qual duas crianças com um pesado
passado, crianças das quais nada lhe faltavam, encontram sua redenção em um
jardim.
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Produzido com apurado primor técnico por Francis Ford Coppola, o livro virou filme em 1993. |
O
cenário é uma imensa mansão, nomeada Mansão Misselthwaite, de mais de cem
quartos, como é informado na história, situada num campo em uma “charneca”, um
extenso campo verde, com rochas (sendo esse campo, junto com o jardim, um dos
personagens centrais do livro), no interior de Yorkshire, o maior condado da
Inglaterra. A mansão pertence a Archibald Craven, a autoridade máxima da casa e
ausente durante a maior parte do tempo. Aparentemente, para esta família, nada
deveria faltar.
A
obra é muito completa, e simétrica na composição dos seus personagens,
antagônicos, parecem se completar e se contrapor, na medida que mesmo tão
opostos, nunca deixam de ser amigos, constituindo uma história singela, não de
inimigos, não de brigas ou desafios, mas sim um drama no qual os personagens
não tiveram escolha, enfrentam a realidade que a vida propôs à eles, e suas
atitudes causaram os resultados.
Temos
Medlock, a governanta da mansão, típica linha-dura, age por meio da opressão,
impondo toda a sorte de limites às crianças. Dispõe de todo o dinheiro, comida,
médicos, autoridade, inda assim não consegue progredir na educação e cura
daquele lar. Seu contraponto é Susan Sowerby, mãe de Martha e Dickon (e outros
vários filhos). Pobre, humilde e iletrada, mora em um pequeno casebre na
charneca onde luta para sustentar e educar todos os filhos, e envolta a tantas
dificuldades, é bem sucedida, ao contrário de Medlock. Ambas são muito amigas e
se respeitam muito. Há ainda um elo intermediário, Ben Weatherstaff, um
jardineiro durão do campo, de coração mole.
Somos
apresentados à personagem Mary Lennox: uma menina, que segundo a narrativa, é
feia, antipática, mirrada, apática, doente, e não gosta nem se interessa por
nada, nem ninguém. Egoísta e egocêntrica, a pequena Mary, de 10 anos, nascida
na Índia, época em que era governada pela Grã-Bretanha, perde seus pais pela
peste da cólera, fato que obviamente mudará para sempre sua vida, pode-se dizer
que a jovem vivia?
Quando Mary Lennox foi trazida para a Mansão
Misselthwaite para morar com o tio, todos diziam que ela era a criança mais
antipática que eles já tinham visto na vida. E de fato era verdade. Ela tinha
um rostinho chupado, um corpinho magricela, e estava sempre de cara amarrada.
Seu cabelo era amarelo e seu rosto era amarelo, porque ela havia nascido na
Índia e vivia pegando uma doença atrás da outra. (BURNETT, 1911, p. 201).
Ela
é a principal protagonista da história durante o primeiro ato do romance, no
qual há dois mistérios: o próprio jardim, no qual ninguém tem autoridade de
entrar, e o segredo de outro morador da mansão Misselthwaite: Collin Craven.
Filho
de Archibald Craven, Collin tem 10 anos, dos quais todos foram passados em um
dos vários quartos da mansão. Doente desde sempre, ele nunca saiu da cama, não
toma sol, não pratica nenhuma atividade que não reclamar, pedir e chorar. Tão
mimado quanto Mary, é insuportavelmente egoísta, mandão e extremamente
depressivo. Fala com naturalidade que aguarda a morte a qualquer momento, e que
não tem nenhuma esperança de envelhecer, além da certeza de que vai ficar
corcunda como o pai. Seu nascimento coincide com a morte da sua mãe, um dos pontos
chaves da história, que muda todos os rumos.
O
personagem mediador entre Mary e Collin é Dickon. O menino do campo, que mora
na Charneca, de família humilde, de poucos recursos, de relacionamento com a
natureza e que, ao contrário de ambos, é livre e simplesmente não tem
dificuldades nem dramas pessoais. Dickon é como o próprio livro diz,
encantador. Ele é realmente encantador, e consegue transpor para a realidade
uma história de uma pessoa que tem relacionamento com os animais, e prova que
isso não é tolice nem bobagem, e faz tudo isso com extrema naturalidade,
méritos da autora.
Archibald,
o pai de Collin, entrou em profunda depressão com a morte de sua esposa e
simplesmente não se relaciona com o filho, o que causa feridas em ambos os
lados. Sem saber como enfrentar a vida, Craven parte em uma jornada de
auto-reconhecimento, em busca de respostas, em busca de uma fuga.
É
impressionante a habilidade com que Burnett compôs seus personagens, totalmente
neutros de quaisquer estereótipos, livres de caricaturas, únicos e diferentes.
Aonde esperaríamos, na literatura infantil, uma personagem protagonista
descrita como feia e chata? Qual o fundamento dessa originalidade, que acabou
dando certo? Possivelmente a não-industrialização da arte e literatura da
época. Ainda assim, a trama é simples, mas consegue ser profunda.
Mary,
a enfezadinha, como é apelidada na embarcação que a leva à Inglaterra, é o
oposto de Collin, em determinados pontos. Vem morar a mansão após a morte dos
pais, por não ter aonde morar. É lhe dado um quarto, nada mais. Ela não tem
direitos. Ela não tem liberdade, espaço, e não pode exigir nada. Mas sua
estadia na velha e misteriosa mansão atiça sua curiosidade, partindo em busca
de exploração, que a leva a encontrar o jardim.
Collin,
o rajá, como é apelidado por Mary, é tão mimado e esnobe quanto ela, é o senhor
da casa quando seu pai não está, e ele nunca está. Com seus ataques de histeria
quando não tem suas vontades atendidas, tem total liberdade para fazer o que
quiser, mas opta apenas pela reclusão. Nada lhe falta, tudo ele tem, mas nada
ele quer. Apenas restringe-se a ficar na cama e cultivar sua hipocondria.
É
quando ambos se encontram que tudo passa a mudar: acostumados com a solidão,
ninguém da mesma idade, ninguém do próprio sangue, agora presenteado com uma
prima que sabe tudo sobre o lado de fora do quarto, com tanto em comum
(sofrimentos, ausência dos pais, apatia, desesperança), ambos passam a crescer,
se desenvolver, se libertar e, principalmente, construir seu caráter.
Agora
que passam a se descobrir, Mary, empenhada no seu objetivo de acordar o jardim
que encontrou, fica ligada a Collin, com o mesmo interesse. Todos na casa
passam a estranhar as melhoras no comportamento de Collin, até a descoberta do
seu contato com Mary. Aí que vem mais um diferencial surpreendente na história
de Burnett: Collin não muda seu comportamento, não melhora, não fica dócil, nem
bonzinho, apenas por “agora ter um amigo”, não pela “beleza da amizade e do
amor”, não, nenhum desses clichês. Collin é forçado a entender e aceitar os
outros como seres humanos, e não escravos de sua vontade, a partir do momento
que é confrontado e esmagado por sua igual.
Um
dos embates entre Mary e Collin é recorrente da ciumeira de Collin quanto a
Dickon, apesar de admirá-lo profundamente, como todas as pessoas que conhecem
Dickon. Em uma das manhãs Mary deixa de ver Collin para encontrar-se com Dickon
no jardim, Collin não tolera passar a manhã solitário, já acostumado com a
presença da prima, e desacostumado a penar seus dias sozinho na cama, ao
reencontrá-la ameaça proibir a presença de Dickon e forçar a presença de Mary.
Tal comportamento foi abordado de maneira interessantíssima no filme como um
suposto triângulo amoroso, da maneira mais inocente e bela possível, de acordo
com a idade latente em que vivem as crianças.
Acostumado
a ter todas as suas ordens devidamente atendidas, Collin é surpreendido com um
belo não de Mary, que contraria tudo o que ele quer neste momento, o que nos
leva ao “chilique”.
-Você para com isso! Ela quase
gritou. “Você para com isso agora! Eu odeio você! Todo mundo odeia você! Eu
queria que todo mundo fosse embora desta casa e deixasse você berrar até
morrer! Você vai morrer de tanto berrar daqui a pouco, e eu quero mesmo que
isso aconteça!” (...) e se você der outro berro, eu vou berrar também (...) e
eu consigo berrar bem mais alto que você!”. (BURNETT, 1911, p. 201).
Sendo
uma plena lição de que as crianças precisam de limites, e também de liberdade,
o que só pode ser dado com pais presentes, somos agraciados com a cena
antológica de uma menina que não pode nada e faz tudo educando um menino que
pode tudo e não faz nada. De amigos que não iriam longe sem uma boa briga.
Frances quebra os paradigmas, escreve uma história infantil com crianças feias e
chatas, com morte, briga, e a redenção no final.
É
curioso notar que, sendo crianças de família rica, acostumada ao luxo e a ter
tudo que poderiam desejar, buscam sua redenção justamente no natural, no que
não custa nada. Mais além do que isto, no trabalho! Na tarefa deleitosa da
horticultura, no jardim secreto, numa lição de que o campo é melhor que a
cidade. E é!
Chegamos
ao personagem central. O jardim. O jardim é uma alegoria para as crianças.
Abandonado há 10 anos, doente, evitado, trancado, estéril. Como Collin, é a
causa de todos os dramas da família, supostamente a causa mortis da Sra. Craven
(a autora deixa isso em aberto), e também é, como Mary, a solução desses
dramas.
Em essência, o livro é sobre um milagre psicológico:
a completa regeneração de duas crianças de dez anos infelizes, autocentradas e
absolutamente insuportáveis. Mary Lennox e Colin Craven, as crianças
protagonistas, encenam uma sutil versão psicológica do enredo típico de
Burnett. Eles recuperam não a riqueza, mas a felicidade natural infantil e a
esperança no futuro. (LURIE, 1999, p. 11).
É
no jardim que os pais de Collin passaram seus melhores momentos. É lá que a mãe
de Collin morre. É ele que trás as lembranças mais felizes e doloridas da vida
de Craven. Assim como Collin, é ele que é castigado, bloqueado, por lembrar a
senhorita Craven. E com a intromissão de Mary, é ali que Collin encontra sua
cura, aprende a andar e esquece os pesares de sua curta vida, almeja “viver
para sempre”. Ali reencontra seu pai, que tão martirizado quanto ele, também
encontra seu rumo. É ali que Mary deixa de ser espectadora da vida, e passa a
ser protagonista dela. Ganha um motivo para esperar o próximo dia, deixa de
esperar que a sirvam, a lavem, e passa a sujar as mãos com a terra. E junto às
crianças, é o próprio jardim que também ganha sua vida de volta.
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O livro é atualmente distribuído pela editora Companhia das Letras, sob o selo Penguin-Companhia. |
Enfim,
cada personagem do livro merece destaque, mesmo que não seja humana, o próprio
jardim é o maior personagem da história. Frances Hodgson Burnett conseguiu
criar uma história fora dos padrões, sem um clímax previsível, sem uma “grande
batalha final”, fugindo dos habituais clichês, mesmo ao usar um deles: o do
parente próximo que quer se apoderar da herança, é quebrado ao informar que
este até gostaria disso, mas não que fosse mover uma unha para tanto. Uma narrativa
da rotina, do diário de pessoas que tinham traumas a serem resolvidos, e
conseguiram, de maneira poética, poética como a própria escrita de sua autora,
O Jardim Secreto é inteiro uma poesia e parafraseando a Mary Lennox do filme de
1993, “se você for ver, o mundo inteiro é um jardim”.